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Sep 5, 2013

Ali se floram Allis...

Adriana Peliano



Adriana Peliano
Allis Anis: Clara Campos / foto: Gabriela Rassy


Era um dia Is. Veio uma noite Lis. No seu céu sem nuvens uma chuvem de coelho branco desbrochava e passarinhava dentro de um sonho acordado da menina Ali sim. Quando tão pequena antes de dormir, seus sonhos se soltavam como bolhas de sabão envoltecendo seus céliocílios de ventamias e brisabrilhas. Bastava escolher o mais querido e Ali se ir. A bolha então expandia e explodia e irradiava luzes e desejos de anuventuras. Nasceu Ali seu amor pela nuvem e desde então olhava o céu e desejava que uma plumida maciez galante virasse um coelho branco só para ela. A nuvem então destilava jasmininas e a thumbelinda se bebia em sonhos e sonos e sons e oms e tão bom e mãos e aõs e ans e assim ali se ia.



Adriana Peliano
foto: Gabriela Rassy

Antes de acordar ela abraçava tanto a nuvem que achava que iria então voltar com ela para sua quase nuvem da cama de cá, feita de travesseiros de plumas e penas e pêlos e peles, lençóis molhados e névoas em véus e dorcéus de voal voando para dentro de sua toca toque em seus subterrâneos telúricos de algodão. A nuvem em pêlo então nuvenceu e a menina acordou e descobriu que podia ali se plantar em pólens de sonhos e bolhas de condão de lua de mel em coelhos de licor de melissalis e então ninar e mimar a sua sede de infimito. E assim choveriam lágrimas em flor e néctar de ardor.



Adriana Peliano
foto: Patrícia Saito

Os sonhos plantados foram enfeitiçados pela noite dela e açucarados por poeiras magicósmicas, explosões de estrelas e olhares que convidam para além do oceamo. A nuvem entumeceu. A nuvem suspirou. A nuvem anuviou bolhas de cristal, sementes pluviais de peladelos amaravilhosos. A nuvem transbordou. As bolhas bolharam, borbolharam e borboletaram bolhuras. Nesse dia a nuvem chorou sonhos de lágrimeninas. A florrio Allis e a nuvem coelho se desfaleceram em petalágrimas que iriam brindar brincando o jardim da menina Alice, aquela de tanto tempo, aquela que desmilinguiu de saudades, aquela que olhou nos olhos do professor de amartemática num passeio de barco e vislumbrou uma porta para o impossível. Sobre o rio rindo de risos e riscos eles plantaram um sonho aonde flornasceram fontes de desejos e eterno encanto.




Adriana Peliano
Allis Hybris: Clara Campos / foto: Marina Peliano

Das coelhuras da meninuvem hoje chavem duas floresminas – Allis Anis e Allis Hybris. Allis Anis é de um azul espetalante de um ovário alado do céu cemfins. Um azulindo azulante delírio lasuli amante, azul do rio, azul da flor Novalis, azul das dobras do vestido em fuga, azul do pássaro que livre em mim, azul da lagarta que perguntou quem era e alertou para manter a calma, para não atropelar o fluxo das águas, a delicadeza misteriosa dos casulos, a borbolentamenteamante florescida em novamante azul do seu da boca. Sabemos até que um dia ela brilheceu em estrelas na luz do dia amante. Menina flor anis, tinha dons alquimicaminhos da entrega ao fluxo da vida e ao ritmo da respiração bluamante. Menina azul despetalante rega banhos de amor e sortilégios e beijos de bem te vim, chorando poções de fadaladas e convites para um bem me queres toda sua, para sempre céu e amar.


Adriana Peliano
Allis Hybris: Clara Campos / foto: Gabriela Rassy

Das coelhuras da meninoite chovejam duas floresminas – Allis Hybris e Allis Anis. A nuvem chorou rios de gotas de játeameixa e lástima, mares de florestas de flores e amores e amoras em corações de copas, aonde meninas podem perder a cabeça e se desflorar e se tornar rainhas antes da flora. Alis Hybris é de um vermelho alicinógeno. Um vermelho oleo dançante de gordas ondas de psicodelicias, de flores vermelhas em olhos de ressaca de perder-se em desmedidas e desmesuras, com a cabeça voando até as nuvens como uma serpente espiraloucada que logo lança a cabeça em seus próprios pés em danças serpentinas e fumaçabismos, cogumelias e alicinações. Se despetala em fantasia e furia de uma rainha de cale-se que quer cortar nossa cabeça em cor e cólera, coroação escarlate e morte, rosas vermelhas e rosas brancas pintadas de sangue, fogozosos de frutas romãs infernais, balões carmesim que explodem princesamantes. Hybrisbrilhante sua flor vermelha proliflora medicinas do balanço manso dos deslimites desejantes do mar de rosas e horizontes magicósmicos para sempre em mim.



Adriana Peliano

foto: Gabriela Rassy

Bebida Allis Anil Anis

Criação de poção mágica alicinante: Junior WM


Adriana Peliano
foto: Gabriela Rassy

Bebida Allis Ruby Hybris
Criação de poção mágica alicinante: Junior WM

E as duas meninas e suas manias – Allis Anil Anis e Allis Rubi Hybris - nascem flores e amorameixas, num suclo fluxofluente de águas e bebidas florescentes, bebidas bebam-me florespíritos de cores místicas, flor de lágrima que quente, lente e sente, entre lentamente sua, sonho em bolhas e borbulhas de um mar sem fim como um conto de fadas em que o mar ondula por cima e engravida a noite de sonhos loucos que aguardam nas cavernas pulsantes do coração o nosso mais interno despetalar, tão sonhado despertar.


Adriana Peliano
foto: Gabriela Rassy

Adriana Peliano
 foto: Gabriela Rassy

Hoje nascem as duas meninalistwins em nuvens cem cabeças de uma viagem semfinda em busca do jardim que num outro tempo Alice no País das Maravilhas vislumbrou através de uma misteriosa portinha verde, um jardim de cores que cantam e águas que enfeitiçam dores, odores e amores jorrando desejos de transformação e metamorfases temperadas com saudades do desconhecido. Nessa viagem cada flor que nasce vira também uma bebida bêbada bebame goles e engoles, contagiando sonhos que semeam e brotam e bolham e prolifloram verdadeiros anseios de sim mesma ir.



Adriana Peliano
Allis Hybris: Clara Campos / foto: Gabriela Rassy

Esse sonho é um episódio da estória das meninas Allis, e foi apresentado em performance nos salões CIRCUS HAIR  na  rua Augusta e na rua Pamplona no dia 31 de agosto de 2013.
Saiba mais nos próximos posts.



Adriana Peliano
Allis Anis: Clara Campos / foto: Gabriela Rassy



Criação e direção: Adriana Peliano
Performance: Adriana Peliano e Clara Campos
Produção: Gabriela Rassy
Fotos: Gabriela Rassy / Marina Peliano / Patrícia Saito / Rodrigo Lima / Elói Silvestre 
Assistente de montagem e produção de acessórios: Marina Peliano
Trilha Sonora com performance de Theremin ao vivo: Paulo Beto
Vídeo e aliceoscopias: Marcelo Dust

Agradecimentos: Paulo Beto, Anna Peliano, José Carlos Peliano,
 Marina Peliano, Marcelo Dust, Salão Circus Hair, Patrícia Saito, Rodrigo Lima.


Sep 4, 2013

Ali se plantam e sonham...


Arte sobre a capa de "Nursery Alice" (1890) de Lewis Carroll 


O que é a vida, senão um sonho? 
Lewis Carroll 




Criação e Noite Lix: Adriana Peliano
Allis: Clara Campos


Adriana Peliano  /  foto: Gabriela Rassy    

 
Quando retorna do País do Espelho, Alice fica sempre angustiada sem saber se tudo não passou de um sonho dela, ou se na verdade foi tudo um sonho do Rei Vermelho, e assim, quando ele acordasse, ela desapareceria como a chama de uma vela. Quando pequena, eu costumava dizer em sonho para as minhas sombras e desavenças que tudo não passava de um sonho meu, e quando acordasse eles desapareceriam imediatamente.


Alicinada de muitas aventuras e reinventuras, estou criando novas aventuras para Alice, Alix, Allis, e tantas outras que choram, crescem e mergulham em mims. Antes de dormir quando ainda menina, os sonhos vinham voando como bolhas de sabão e assim eu escolhia minha viagem de cada noite dia.  Nessas novas viagens em performances e brincadeiras cada nova Alice cria, semeia e escolhe seus próprios sonhos, e então, ao descobrir que a vida é também um sonho, pode despertar para uma outra multi-realidade, quem sabe uma surrealidade, um reino amaravilhoso de alicinações. Essas viagens acontecerão em constelações de sonhos, feixes interconectados numa cartografia de despertares em bolhas de cristal e névoa de nuvens e pólens, em ciclos mágicos de transmutação de lágrimas em rios e risos, numa alquimia de buscar-se em criações de sims.


Performance and exhibition at Galeria Fibra
15 - 21 of august, 2013
Creation: Adriana Peliano
Performance: Adriana Peliano & Clara Campos
Production and photos: Gabriela Rassy
Soundtrack and video: Paulo Beto




 Nasceu uma nuvem coelho aonde se plantam sonhos de anuventuras. Enquanto a boneca Allis dormia em sua bolha de pólens de sonho, o público podia assistir a menina Allis dentro do seu próprio sonho através de performance de Clara Campos. Adriana Peliano era a noite mágica que temperava em intervenções magicósmica a nuventura da menina que fertilizou sua nuvem coelho de sonhos lúcidos.







"Pop up artístico colaborativo e sem fim planejado, começa sua itinerância na galeria Fibra com a mostra “Transgressões”. 
Inédita mostra itinerante, aberta e colaborativa de artes visuais e multimídia convida a observar personagens e olhares urbanos que nos sugerem um outro ponto de vista social, estético e cultural. Segundo seus idealizadores, Carola Trimano artista e produtora cultural e Cristián Sepúlveda Lazzaro fotógrafo e colecionador de arte,este trabalho propõe uma reflexão sobre o ato de criar, somar, incluir e colaborar tanto por sua forma que se potencializa através de diversos olhares (artistas) quanto por sua maneira de circular itinerando por diversos circuitos nem sempre convencionais.Esta é uma exposição aberta e mutante com início porém sem data nem forma para acabar. Primeira abertura com participação dos artistas Adriana Peliano, Bruna Sizilio, Carola Trimano, Cristián Sepúlveda Lazzaro, Lorenzo Leon, Lucas Schlosinski e Lilian Fontenla do coletivo LSF e Tathiane Oberleitner."

Jul 1, 2012

Um convite para o evento "Um dia, Alice 2012"

Desing: Adriana Peliano



Finalmente o segundo evento de desaniverário da Sociedade Lewis Carroll do Brasil, 
agora em parceria com a Casa das Rosas. 

Finally happened the second Unbirthday event Um dia Alice ("Aliceday") 
promoted by the Lewis Carroll Society of Brazil and Casa das Rosas ("house of roses").

Casa das Rosas
Sociedade Lewis Carroll do Brasil




foto: Klauss Schramm  / Casa das Rosas


PROGRAMAÇÃO 

15:00h FELIZ DESANIVERSÁRIO 
Introdução ao evento pela Lagarta Azul, o mestre de cerimônias Jonnatha Horta Fortes. 

A VIDA É SONHO 
Retroprojeções musicais baseadas no poema de Lewis Carroll que introduz a obra Alice no País das Maravilhas. 
Música ao vivo (Paulo Beto) + leitura (Érica Alves) + retroprojeções (Adriana Peliano). 

AS METAMORFOSES DE ALICE 
A apresentação propõe uma viagem pelas metamorfoses de Alice nas artes visuais, da Inglaterra Vitoriana até o século XXI. 
Palestra de Adriana Peliano apresentada por Adriana e Thereza Vasques. 

ERA BRILUZ 
Leituras do poema Jabberwocky por Isadora Krieger na tradução de Augusto de Campos 
e de traduções de Bráulio Tavares por Claudio Willer. 
Projeção de imagens criadas por Ione de Medeiros. 
Vídeo com interpretação do poema Jabberwocky por Mark Burstein. 

16:30h 

INTERVALO 
Coma-mes e beba-mes especiais aos cuidados de Bia Goll (Otto Bistrot). 

ALICE SUBTERRÂNEA 
Lançamento de uma coleção de figuras inspiradas na obra de Lewis Carroll criadas pelos artistas Adriana Peliano + Anderson Resende + Indio San. 
Edição limitada produzida pela Sociedade Lewis Carroll do Brasil. 

GO ASK ALICE 

Releituras de músicas alicinantes relacionadas à obra de Lewis Carroll, 
com os músicos Paulo Beto (direção musical) + Pedro Zopelar + Érica Alves. 

17:00h 

 ESTÓRIA ABERTA 
Narração interativa baseada na obra “Alice no País das Maravilhas” por Kiara Terra, com projeções performágicas por Ricardo Ramos. 

Projeção de vídeo: Marcelo Dust. 
Direção de palco: Henrique Mourão. 

informações: alicemaravilha@gmail.com


foto: Hélio Nori  / Casa das Rosas


CASA DAS ROSAS
   Diretor: Frederico Barbosa
Técnica Cultural: Alessandra Cantero
Auxiliar Cultural: Daniel Moreira
Educativo: Ana Carolina Rodrigues, Camila Feltre, Kryslei Cipriano Goes
Comunicação: Mariana Lima
 Produção: Waltemir Dantas, Jackson Oliveira, Beto Boing


Casa das Rosas
Sociedade Lewis Carroll do Brasil


Nov 24, 2011

Adriana meets Alice in Central Park

 I just come back from New York, where I gave a lecture with Paulo Beto (my dear husband) to the Lewis Carroll Society of North America (LCSNA) in the Fall meeting 2011.
 These pictures show the meeting of two Alices in moments of pure magic. 
 Enjoy the beautiful colors of Central Park in the fall, where Alice creates wonderlands, 
watered by the imagination of the visitors from many lands.

Adriana Peliano |  photos: Paulo Beto 
 
 










Apr 16, 2010

Um dia, Alice: bilhetes de passagem

Essas são as páginas do livro que foi lido durante o evento "Um dia Alice", em 11 de abril de 2010.
A atriz Karol Korsakoff leu "Uma viagem inesquecível".
A professora de literatura Thereza Vasques leu "Esse livro é doido".
Thereza Vasques e o cineasta "Dennison Ramalho" leram "Jabberwocky". Thereza leu as traduções do poema para o português e Dennison leu o poema original.






















Engrenagens movementes para os membros da tripulação:


A Alice se move dentro da caneta, descendo pelo poço atrás do coelho branco.

Para escrever idéias insólitas e surreais.




Alicepscópio:

Para ver o mundo com outros olhos.

Apr 14, 2010

"Alice mínima" conto de Wilson Bueno no evento "Um dia, Alice"




minima




Segue a primeira versão do conto.



A versão definitiva será publicada pela editora Katarina Kartoneira em 2015… Aguardem.


Alice Mínima

por Wilson Bueno


A Adriana Peliano

Difícil manter-se ali, apesar de mínima. Mas tão mínima, que a olho nu, isto é, sem poderosas lentes, jamais seria vista. Nossa! Nossa! A nossa invisível Alice apoiava um dos fios de perna num lado do coração e outro no lado oposto de tal forma que desse modo conseguia se equilibrar, ainda que, muitas vezes, um dos mínimos pezinhos escorregasse e ela ficasse assim meio enviesada na ponta do coração do Ás de Copas. Trêmulas ambas as pernas – tanto a esquerda quanto a direita.

“Será que exagerei na poção mágica que faz a gente diminuir encontrada atrás da poltrona da casa do Coelho?” – pensava Alice, incapaz sequer de pedir socorro, pois a voz era um arremedo de voz, certamente ainda mais fina que a do Mosquito e talvez inaudível mesmo, pois quanto mais pedia socorro, parece que menos a ouviam. A Rainha, caso ouvisse semelhante voz-zumbido, ou ainda mais baixo que um zumbido, mandaria cortar a cabeça de Alice, mesmo que ninguém pudesse lhe enxergar o pescoço. E era fiando-se nisso que Alice gritava e gritava e quanto mais escorregava, mais as pernas tremiam. E ela ainda mais pedia por socorro.

Até que teve a idéia de sentar-se, como quem monta a cavalo, no vértice do coração da carta. Coisa que ligeiro fez, mesmo porque suas perninhas-de-linha não suportariam o desconforto da posição anterior, mais um minuto, e os minutos ali pareciam ser ainda mais breves que os minutos da vida aqui fora.

“Como poderei sair daqui – pensou Alice – se agora, de pequena passei a invisível?”

Mas aí é que se deu a aparição da Lagarta. Imaginem vocês, com uns óculos de lentes tão fantásticas e potentes que sugeriam os óculos de um escafandro, desses que mergulham no fundo dos Oceanos para catar minúsculas pedrinhas destinadas à coleção de gemas raras do Museu Britânico.

E lá vinha ela, a Lagarta, sempre devagar, e sempre cansada, meio que se arrastando, e andou a carta toda até chegar bem próxima do coração do Ás de Copas. Meneou a cabeça muitas vezes e de repente soltou um “ah!” de espanto e perplexidade:

– Não posso acreditar no que minhas lentes vêem! – exclamou a Lagarta extremamente surpresa. – Você, Alice?! Mas como pode ter ficado menor que um cisco? Menor que um grão de poeira?

– Pois é, Dona Lagarta, acho que abusei da poção mágica de diminuir gente que encontrei atrás da poltrona do Gato. Também estava tão docinha...

– Sorte a sua, Alice! – ralhou a Lagarta, num misto de impaciência e regozijo. – Não tivesse emprestado esses óculos- lunetas dos irmãos Tledle, nunca sei se do Tledledee ou se do Tledledum, pois são tão parecidos, jamais a encontraria, menina! Jamais!

– E por que essas lentes, Dona Lagarta? Só para me procurar? – perguntou, chorosa, a mínima Alice, agora mais calma, mas ainda enganchada na ponta do coração do Ás de Copas e com muito medo de cair dali. Por mínima, dada a altura, o tombo seria imenso, ou mesmo fatal.

– Claro que não, Alice! Nem sabia... Ando atrás de uma Pulga que roubou 500 libras do Unicórnio. E te confesso que de longe pensei que você fosse a própria Pulga Larápia.

– Graças a Deus! – benzeu-se Alice. E logo se corrigiu pois com aquela expressão poderia parecer à Lagarta que estava aprovando o feio ato da Pulga. E logo este de roubar o Unicórnio, aquele animal tão gracioso que fizera um acordo com ela, Alice, aquele acordo que se ela acreditasse nele, ele passaria a acreditar nela e assim, um acreditando no outro, ambos passariam a se ver sob a mais veraz realidade.

Mas tudo indicou que a Lagarta entendeu de pronto o “Graças a Deus!” de Alice. E essa estava tão pálida e trêmula em sua minimez mais mínima, que só as lentes da Lagarta alcançavam perceber. Além disso, a Lagarta, sabemos, era muito compreensiva, ademais de generosa.

E foi então que Alice arriscou perguntar o que é que ela vira com tão poderosas lentes, até ali, na caçada atrás da Pulga Larápia:

– Dona Lagarta o que a senhora já viu em sua caminhada? – uma curiosa Alicimínima, com voz abaixo da linha do silêncio, enganchada na ponta do coração da carta, quis saber.

– Nem te conto, Alice. Um exército de gérmens ainda há pouco vi subindo uma haste de capim. E incrível foi quando três grandes pulgões, estes visíveis sem as lentes, atacaram os gérmens. Uma guerra sangrenta, mas, quieta em meu canto, assisti à vitória dos pulgões. Parentes da Pulga Larápia, sem dúvida, mas não podemos incriminar alguém só porque guarda parentesco com quem não tem caráter, não é mesmo?

– Sim, siiiimmmmmmmmmmmm – zuniu Alicimínima, temerosa de ficar ainda menor e sumir até mesmo da visão das poderosas lentes da Lagarta.

– Dona Lagarta, estou com medo... Medo de ficar ainda menor...

– Se você ficar ainda menor, não há razão para medo – corrigiu a Lagarta.

– É mesmo – entendeu logo nossa Alicimínima. – Se eu for ficando menor, e menor, e menor ainda, aí eu desapareço e deixo de existir e eu não existindo não poderei ter medo, não é mesmo?

– Justo, Alice. Justo – aprovou a Lagarta. E você então ficaria tão mínima, mas tão mínima, que deixando de existir, não seria nem mais sequer Alice.

– Mas será que eu não ficaria sendo, assim mesmo, uma Alicenada alicimínima, e continuaria com medo? Será que o que é nada não tem medo de nada ? De nadinha mesmo?

Dona Lagarta não respondeu mas foi logo acalmando Alice:

– Olha, continua aí sentadinha no vértice do coração de Copas. Segura firmizíssima com as mãozinhas, como quem segura num balancim, para não cair, que eu vou ver se encontro a outra poção, a de crescer, que, sei, o Coelho guarda, bem escondida, em sua casa, numa velha cômoda...

Uma chorosinhinhha Alicimínimazinhainha assentiu com a invisivelzinha cabecinhinha que ali aguardaria a Lagarta.

Não demorou muito, retornou a Lagarta com o vidro de poção de crescer encontrado, bem escondido, dentro de uma gaveta da cômoda, na casa do Coelho. De pequeníssima bolsa retirou com a boca um conta-gotas tão microscópico que só os olhos-lunetas da Lagarta conseguiam enxergar. E, com um sopro, o pôs nas mãos da tiquititíssima Alice.

– Abra sua bocazinhazinha Alicinha – pediu Dona Lagarta. E, com extremo cuidado e paciência, como só as lagartas são capazes, com os óculos de poderosas lentes, que nunca foram tão úteis, ajudou Alice a pingar as partículas-gotículas da poção na linguazinhazinha de nossa Aliceminimazinha.

E esta foi de novo crescendo, crescendo, e quando chegou no tamanho suficiente para saltar da ponta do coração, ainda assim teve que se servir do micro conta-gotículas soprado da boca da Lagarta. Mas logo alcançou escorregar, por si própria, do Ás de Copas e aí, agora a gotículasículas medidas, continuou a aspirar boquita adentro a poção mágica. Desta feita com extremo cuidado. Poderia, quem sabe?, virar uma dessas gigantonas que vão por aí amassando com seus grandes pés casas, árvores e até afundando barcos em alto mar. Deus nos livre a falta de medida, conjeturou a ainda desmedida Alice.

Quando ficou bem maior que a Lagarta, percebeu que algo lhe subia pela perna. E não é que era a Pulga Larápia!!! Num movimento rápido e certeiro, como só Alice era capaz, grudou entre o polegar e o indicador a bandida, disposta a entregá-la, viva, à Lagarta. Esperneando muito, a Pulga Larápia, que além de larápia era muito ágil, ou por isso mesmo, escapou, contudo, de entre os dedos de Alice e sumiu na Floresta a gigantescos saltos, a foragida.

A Lagarta ficou olhando, olhando, e decidiu retirar os incômodos óculos de poderosas lentes. Aquela Pulga jamais ninguém encontraria – concluiu.

Mas aí Alice já estava em seu tamanho quase normal e tomando a Lagarta com cuidado na palma da mão, para que não se cansasse no caminho, a levou até o Unicórnio. E junto ao Unicórnio testemunhou todo o ocorrido.


março / 2010

O conto Alice Mínima foi criado especialmente para o evento "Um dia, Alice".

minima



DEPOIMENTO DE WILSON BUENO

"Um dia, Alice", o evento que movimentou das 16 às 20 hs, o último domingo paulistano, 11 de abril, lotando o auditório do Centro Cultural Brasileiro Britânico, em São Paulo, foi um sucesso absoluto, em minha opinião. Desses que raramente acontecem no Brasil. Basta destacar que para um auditório de 200 lugares, havia mais de 400 presenças - sobretudo de jovens, que superlotaram as dependências da Cultural Inglesa, em Pinheiros.

Para mim, que conduzi o bate-papo "O sentido do nonsense", foi alta honra participar do autêntico acontecimento cultural que inaugurou, em altíssimo estilo, as iniciativas - das quais esperamos muitas outras, obviamente -, da Sociedade Lewis Carroll do Brasil, brilhantemente conduzida por este misto de "fada" e artista de alta estirpe que é Adriana Peliano, presidente dessa entidade que veio para ficar, no Brasil. O evento de 11 de abril diz mais do que qualquer depoimento que se faça sobre ele.










Entrevista com o escritor Wilson Bueno para o programa Entrelinhas da TV cultura.
Fotos: João Batista Santana

Veja o programa AQUI


O sentido do nonsense

O escritor Wilson Bueno deu uma palestra sobre Lewis Carroll e o sentido do nonsense. Inicialmente Wilson Bueno leu com uma lupa um texto de sua criação inspirado em Alice: "Alice Mínima". Em seguida, Wilson falou sobre a tradição do nonsense. E para completar, partindo de sua experiência no sertão aonde viveu até os sete anos, escritor aproximou Lewis Carroll das adivinhas caipiras, do nonsense do sertão profundo onde cobras cozinham bezerros e óculos novos não têm aro nem lentes mas são óculos novos. Uma palestra leve, engraçada, brincalhona. O público riu e se divertiu muito.


Quem é Wilson Bueno?

Wilson Bueno, um dos mais expressivos escritores brasileiros contemporâneos, é autor de inúmeros títulos, em várias vertentes e gêneros literários. Autor da novela Mar Paraguayo (editora Iluminuras, São Paulo), publicada na Argentina, Chile, México, Cuba, Estados Unidos, e objeto de teses e seminários num arco que vai da USP à Universidade do Cabo, passando por Berkeley e Sorbonne, é considerada, por sua inventiva construção ( portunhol e guarani) um clássico contemporâneo.

Prodigioso fabulista, estrito senso, é igualmente notável e dona de extensa fortuna crítica, o que chama de sua “trilogia zoofílica” constituída por Manual de Zoofilia (Noa Noa), Jardim Zoológico (Iluminuras) e Cachorros do Céu (editora Planeta, finalista do Prêmio Portugal Telecom/2006).

Ao lado de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Josely Vianna Baptista é um dos únicos autores vivos da literatura brasileira a integrar a recém-lançada, nos Estados Unidos, The Oxford Book of Latin American Poetry ( Oxford Press University, 706 págs.) considerado pelo “New York Times” a mais importante antologia do gênero até hoje publicada em língua inglesa.

(J. B. V. S.)

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