Alice in process…

Instead of the question “Who is Alice?” there are now paths leading to what Alice might come to be…

1 May 2010

De volta à toca do coelho

Nelson de Oliveira
publicado no Guia da Folha em 30 /04/ 2010.



Na esteira do filme "Alice no país das maravilhas" de Tim Burton, saem novas edições do clássico de Lewis Carroll e um romance biográfico sobre o controvertido relacionamento da musa infantil com o escritor.

Durante um passeio de barco, em 4 de julho de 1862, o senhor Charles Dodgson, acompanhado de um amigo e três meninas - as irmãs Liddell - inventou uma divertida história para entretê-las. A protagonista era a pequena Alice, sua preferida entre as irmãs. O improviso deu origem a um país imaginário, cujas leis encantam até hoje crianças, filósofos e físicos quânticos.




Um século e meio depois, o novo filme de Tim Burton poderia se chamar "De volta ao País das Maravilhas e o que Alice reencontrou lá". Afinal, Alice está retornando, aos 19 anos, ao mundo onírico das duas obras primas de Dodgson, melhor dizendo, Lewis Carroll: "Alice no país das maravilhas" (1865) e "Através do espelho e o que Alice encontrou lá" (1871).

Burton, ao iniciar sua versão em 3D das duas "Alices", mexeu não apenas com a fantasia de seus próprios fãs, mas principalmente com a da comunidade literária. Antes da estréia do longa metragem, o trailer em 2D já estimulava a imaginação dos leitores e dos especialistas em Carroll. Os editores ouviram o chamado e responderam à altura, com livros sobre o filme e seu entorno. E, é claro, com novas traduções do clássico que nasceu para três crianças, mas hoje é de milhões de pessoas de todas as idades.





É bom lembrar que traduzir, no caso, significa reinventar, pois as duas obras mais fascinantes de Carroll são impulsionadas por uma lógica engenhosa, pródiga em trocadilhos, jogos de palavras, quebra-cabeças, paródias e alusões culturais. Cada tradutor precisa reinventar Carroll à sua maneira. No passado, o poeta Sebastião Uchôa Leite, por exemplo, reinventou as duas "Alices" para o adulto culto. Ao passo que Ana Maria Machado reinventou a primeira Alice para a criança brasileira.



Tradução e organização de Sebastião Uchôa Leite.
Ilustrações originais de Lewis Carroll e John Tenniel (Inglaterra).
São Paulo: Summus, 1980. (3a edição)





Tradução de Ana Maria Machado.
Ilustrações de Jô Oliveira. (Brasil)
São Paulo: Editora Ática, 1997.

A mais recente reinvenção de "Alice no país das maravilhas" é a de Nicolau Sevcenko, que optou pelo registo coloquial. Os parágrafos originais, mais longos, foram divididos em parágrafos curtos; os diálogos são precedidos por travessão; o vocabulário é mais simples e os poemas não apresentam tantas inversões sintáticas. As criativas ilustrações de Luiz Zerbini - colagens, maquetes e truques fotográficos - não são meros figurantes; também protagonizam.


Tradução de Nicolau Sevcenko.
Ilustrações: Luiz Zerbini.
São Paulo: Cosac Naify, 2009.

Maria Luiza Borges, por sua vez, reinventou as duas Alices, porém sem abrir mão do registro culto. Vencedora do prêmio Jabuti em 2002, sua tradução sai agora em edição de bolso, com capa dura. Acompanham o texto as expressivas ilustrações de John Tenniel, da edição roginal inglesa. A linguagem mais formal, mais próxima da era vitoriana, somada aos desenhos em preto e branco, tem o poder de levar o leitor a uma viagem no tempo. De volta a um século XIX mágico e estranho, muito diferente do século 19 dos historiadores.





Tradução de Maria Luiza de X. Borges.
Introdução e notas de Martin Gardner.
Ilustrações originais de John Tenniel (Inglaterra).
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

A nova onda provocada pelo filme de Tim Burton também incentivou o lançamento de produtos, digamos, periféricos. "Eu sou Alice", de Melanie Benjamin não é a biografia de Alice Liddell; é algo mais singelo: um romance delicado em que a realidade e a fantasia se misturam, bem ao gosto pós moderno. A autora ficou tão imprssionada com o erotismo das fotos clicadas por Carroll - imagens de meninas em poses provocantes, entre elas as de Alice - , que decidiu transformar sua investigação em um romance. Narrado não pelo escritor, mas inteiramente por sua musa.



Melanie Benjamin
Planeta do Brasil:2010.

Lewis Carroll foi, em muitos aspectos, uma idealização de seu criador, Charles Dodgson. Como todo bom "alter ego", Carroll possuía as principais qualidades de Dodgson e nenhum dos seus defeitos. Aos olhos de todos da Universidade de Oxford, Dodgson era só um professor de matemática sem maiores atrativos. Um pexinho num aquário grande. No outro extremo da escala social estava o patriarca da família Liddell: o reitor de Christ Church, a principal faculdade do campus.


Christ Church, Oxford.

O solitários, tímido e gago Dodgson admirava as irmãs Liddell, principalmente a do meio, Alice. Que respondeu intensamente a essa admiração, apaixonando-se por ele. Esse é o conflito central do romance de Melanie Benjamin: o amor secreto de uma menina por seu amigo 20 anos mais velho. Mas, na cabecinha da personagem, a diferença de idade jamais seria obstáculo. "Ora, papai não é 15 anos mais velho do que a mamãe?" A maior interdição, para os súditos da Rainha Vitória, era de longe a grande diferença social.


O senho Dodgson adorava fotografar as três irmãs. No capítulo mais intenso do romance, sozinho com alice - a menina tem sete anos - ele a ajuda as tirar seu vestido limpo e civilizado e vestir algo mais selvagem: um vestido de cigana, sujo e amarrotado. A experiência da nudez e da intimidade provoca em Alice setimentos conflitantes de liberdade, medo e desejo que jamais sossegarão.


Alice Liddell fotografada por Lewis Carroll.

"Eu sou alice" não é apenas sobre a perigosa e profunda amizade ente um homem e uma menina. É também sobre o pavor de crescer. "Como é trágico que a infância tenha que acabar um dia, lamenta Alice, agora aos 11 anos, durante o mítico passeio de barco.





A fixação do senhor Dodgson pela infância lembra de outro desejustado célebre, J. M. Barrie, criador de Peter Pan, o menino que se recusava a crescer. E as últimas linhas de "Alice no país das maravilhas" falam melancolicamente dessa sensação penosa: o sonho acabou.



Alice Liddell fotografada por Lewis Carroll.

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