Alice in process…

Instead of the question “Who is Alice?” there are now paths leading to what Alice might come to be…

2 Feb 2010

O coelho fillosófico por Wilson Bueno





Jan Svankmajer


Se Ontem já foi um Hoje que a gente lembra, longes Hoje e Ontem, o que será do Amanhã que é filho do Hoje ainda que de Hoje nada seja feito, preciosíssimo Amanhã que ninguém sabe nem ainda viu, sempre em fuga do presente, a correr avante, antes do antes que aconteça, pois o que será do Hoje que entre os dois se espreme, enredado nas malhas do Agora soante?
Isso perguntou o empertigado Coelho Fillosófico, em poucas rimas libertinas, à frente do espelho onde, como de costume, não só o cabelo penteava; antes demorava-se a conversar consigo mesmo, em diálogo de imagem e ecoar refletidos. O que dava a ele, ao Coelho Fillosófico, inaudita autoridade – a daquele que não só pergunta mas a si próprio responde, sem saber se quem pergunta é o do espelho em que se vê refletido ou é esse mesmo, meu Deus!, quem responde.

O Coelho Fillosófico percebendo que também a pergunta já era uma complexa resposta, dissertiva tese sobre o Tempo, só fez retirar do bolso do colete de seda, uma navalha. E entregou-a ao Coelho do espelho. “Para melhor saber isso, abra e corte com ela o vento!” – ordenou de repente.


O Coelho Fillosófico que sempre fora uma imagem exata tomou nas mãos a navalha do Coelho que autoritário ordenava e fez do vento numerosos retalhos. De diferentes cores e tamanhos.

Ante o já assustado Coelho Fillosófico – até hoje não sabemos qual dos dois o que ordenava –, reclamou com a tíbia voz da inocência: “Por que em vez de me dar uma navalha, você não me deu uma tesoura? Seria tão mais prático!!!”

Essa história anda a Floresta, contada por ratos e serpentes, abelhas e borboletas, besouro e vagalume, num diz-que-me-disse, num fala-que-fala, insidioso zum-zum que anda por entre sequóias e samambaias. Atravessada de Antes, Hojes e impecáveis Amanhãs que – ainda – jamais existiram.




Revista Idéias, nº 99, fevereiro 2010, Travessa dos Editores.


Jan Svankmajer



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