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30 de abr. de 2018

Polixeni Papapetrou acorda Alice (em memória)


Polixeni Papapetrou, Photographer With an Eerie Eye, Dies at 57.


Fragmento da minha dissertação de Mestrado:
"Através do Surrealismo e o que Alice encontrou lá." 
(USP, 2012. Orientação de Katia Canton)



John Tenniel, 1865.


Polixeni Papapetrou


"Mas todos sabemos o quanto ainda confundimos as figuras originais de Tenniel e o texto de Carroll que parecem contar juntos a mesma estória. Perdemos a noção se as figuras são de fato fiéis ao texto ou se criamos a partir delas um novo texto. Pode existir de fato fidelidade entre figuras e textos como os de Carroll? Alice pede diálogos! Será que para o leitor atual a Alice de Tenniel continua sendo a mais perfeita ilustração da obra?

Quem desafia a Rainha de braços cruzados?

Quem conversa com um gato louco buscando novas direções a seguir segurando as mãos para trás?

Polixeni Papapetrou



A possibilidade de releitura da imagem original de Tenniel se abre para outras interpretações. Durante anos os ilustradores se fixaram em suas soluções espaciais. Também retomando o repertório original do artista vitoriano, as estratégias conceituais de artistas como Polixeni Papapetrou estabelecem outros diálogos. Fotografia e pintura coexistem num espaço performático aonde as linguagens dialogam e a articulação entre fotografia e pintura amplifica múltiplos caminhos de leitura. 
 
 A filha da artista, Olympia, cria uma nova Alice que interage com os personagens numa atitude que se rebela diante da Alice comportada de Tenniel. Polixeni retoma o cenário de Tenniel e propõe uma nova Alice. Na cena da rainha, se Alice cruzava os braços de forma passiva, a Alice de Olympia reage num gesto de espanto e inquietação. Da mesma forma o leitor de Alice e o leitor de Polixeni podem recriar a estória infinitamente e assim os cânones e as identidades fixas.
 
Estratégias como essa dialogam com o conceito de Narrativas Enviesadas, desenvolvido por Katia Canton[1] As narrativas enviesadas contam estórias de modo não linear, compostos através de colagens, fragmentações, deslocamentos. São obras que narram, porém não necessariamente resolvem as próprias tramas apresentando narrativas abertas. As Alices de Polixeni Papapetrou não contam a estória mas dialogam com as figuras de Tenniel que habitam nosso imaginário, dando passagem para outras maneiras de se contar e se viver a estória de Alice.
 
Se me projeto empaticamente nas Alices de Tenniel, como neurônios no espelho, me sinto uma menina vitoriana domesticada e contida, que não sujaria o vestido, não se jogaria no poço, não se desdobraria em serpente para conhecer seus perigos. (Essas Alices que estão no texto, não aparecem nas figuras de Tenniel). A Alice de Tenniel quase não muda, rígida e resistente aos movimentos de transformação da vida. Aprendemos com Tenniel que Alice acorda no final do livro e tudo volta a ser como era antes. Será? 
 
Quantas aventuras ainda viveria, quantos caminhos escolheria, quantas ainda viria ser? Se a vida é sonho, Alice não tem com acordar, senão despertar. Não se trata apenas do que estava escrito, mas de um diálogo com os seus silêncios, mas de ouvir que nós mesmos somos outros a cada leitura e conosco nossas Alices. Alice extravasa as bordas do livro e vai viver múltiplas aventuras entre devires e constelações. 
 
A Alice de Tenniel ainda dá voltas ao redor da mesa, sempre na hora do chá, emburrada e sem voz. Ao mesmo tempo todos aqueles que insistem em reproduzir fórmulas e frases feitas continuam presos no ritual repetitivo da hora do chá. Muitas Alices de hoje se desdobram em novas linguagens e figuras, despertando em diferentes artes e figuras, ganhando vida própria nas tessituras da cultura. Amigos de novos tempos de que Alices somos capazes?
 
Para que continuar vivendo como Alice sentada na mesa posta do chá sem poder falar? O que buscamos hoje são maneiras de ficarmos amigos do tempo (como sugere o chapeleiro) e nos libertarmos dos rituais que aprisionam. Esse é um convite para as novas Alices. Alices mutantes, múltiplas e simultâneas. Marcel Duchamp construiu sua obra pela superação da arte retiniana e puramente visual pela pintura ideia. Ele nos mostrou que todas as artes nascem e terminam numa zona invisível. Duchamp disse que o “artista, tal como Alice no país das maravilhas, tinha que atravessar o espelho da retina para alcançar uma expressão mais profunda.”


John Tenniel, 1865

Polixeni Papapetrou, 2004



[1] Canton, Katia. Narrativas Enviesadas. Temas da Arte Contemporânea. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


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